Crônica Corporativa - O Militar e o telefone.

            Há muito tempo atrás estava jogando conversa fora com um amigo cujo pai era militar. Ele me contava que achava muito estranho o jeito que o pai dele atendia ao telefone quando estava em serviço. A conversa era seca e sem rodeios, ele já atendia falando o próprio nome, pulava todos os “bons dias” e “como vais” tão comuns em nosso dia-a-dia e após responder perguntas desligava às vezes sem nem dizer um tchau.

A princípio quando você se depara com uma situação assim, a primeira impressão é de que você está falando com uma pessoa bem mal–educada, mas se analisarmos com quem estamos falando, não daria para esperar outra coisa.

Vendo um exército como uma corporação, é logico esperar que a cultura organizacional seja baseada em um espirito de combate. Em um combate, o telefone não é um canal para conversar e fazer amizades, ele é um meio de comunicação e na guerra comunicação é recurso. E recurso, principalmente em situações extremas, deve ser usado com economia e eficiência. Identifique-se, passe a mensagem, libere o canal. Sem desperdício, sem perda de tempo.

Da mesma maneira funciona o combate real, o caso extremo, os soldados estão atirando uns nos outros e se você é um cabo com meia dúzia de soldados ao seu comando e vê o inimigo sorrateiramente se aproximando, você não vai virar para um deles e dizer:

- Com licença soldado?

- Pois não senhor. - responderia o soldado solícito.

- Como está tudo bem? – você perguntará com um sorriso.

- Tudo ótimo, senhor, obrigado por perguntar. Em que posso ser útil?

- Soldado, você poderia, por favor, atirar naquele soldado inimigo que está chegando para nos matar.

E o soldado não responderia, pois ele já estaria morto. E provavelmente você também.



Muito disso acontece no nosso mundo corporativo. Não estamos em guerra, mas estamos o tempo todo competindo com outras organizações. E isso é levado muito a sério, pois se a organização perde a competição, nós perdemos nosso emprego e com ele nosso sustento, ou seja, não é a morte, mas é bem ruim.

E quando pensa especificamente no universo da TI, com seus servidores de missão crítica, alta disponibilidade, milhares de usuários e milhões de transações e isso tudo parado dependendo da sua habilidade para corrigir um bug inesperado já dá pra sentir um calafrio na espinha e o corpo se preparando para uma briga do tipo “faca nos dentes”.

E é nessas horas, quando o circo pega fogo, que vejo algumas pessoas se melindrando porque o chefe falou mais alto, porque o e-mail veio sem assinatura ou bom dia, porque o colega pediu sem falar “por favor”.

Vamos lá né amigo! Agora estamos na guerra cara! Graças a deus não é assim todo dia e logo que a coisa esfriar, o servidor subir e o ultimo soldado inimigo estiver morto e enterrado, eu volto a sorrir e te darei todos os “por favor”, “meu caro”  e “se não for muito incomodo” que você quiser, mas enquanto isso não chega:



- ATIRA CARA!!! ATIRA NELE!!! ATIIIIRAAAAAAA!!!!



Atenciosamente,

Felipe Antunes